Ao olhar a leva de cachorros babando subindo em cima da cachorra cansada, a vira-lata magra que não pode mais, que se acomoda num cantinho para que a deixem tranquila a matilha de focinhos e patas, que a montam sem respiro, ao ver esta cena, lembro-me daquela garota fresca que passava cada tarde com o seu oscilante andar. Era a mais bela flor do bairro humilde, que a observava passar com as pequenas saias de bolinhas, quando os 60s contagiaram sua moda destapada e sua febre de juventude. Ela era a única que se aventurava com os decotes atrevidos e as costas nuas e esses vestidos curtíssimos que nem da Barbie, que estiravam suas pernas desde o calcanhar com tamancos até a mini calcinha.
Naquelas tardes de calor, as velhas sentadas nas portas, escandalizavam-se com o passeio da garota, com a sua ingênua provocação à multidão da esquina, que estava sempre no mesmo lugar, sempre a fiar a sua baba machista zombeteira. A turma do clube esportivo, sempre disposta ao assobio, a um gatinha gostosa, e um monte de elogios grosseiros que faziam-lhe ficar vermelha, tropeçar ao andar mais rápido, com medo daquela febre violenta que se protegia no bando. Por isto, a garota fashion não os olhava, nem sequer lhes prestava atenção com seu ar de rainha cafona, de condessa de mal-gosto, que copiava formas e figuras de revistas para decorar sua juventude de periférica, com trapos coloridos e bugigangas pop.
“A tonta se acha muito”, falavam as garotas do bairro, invejosas da garota fashion, quem provocava tanta admiração invejável. “Parece puta”, falavam baixo rindo quando o grupo da esquina a cobria com beijos e piadas, e pode ter sido o calor daquele verão o agente catalizador responsável de tudo o que aconteceu. Pode ter sido um castigo social sobre alguém que se destaca da média, à garota inocente, que aquela noite passou tão tarde. Tão escura a boca da rua, que tinha sombras de lobo. E, curiosamente, não se podia ver uma alma ao chegar na esquina. Surpresa, esperava que o grupo lhe gritasse alguma coisa mas não ouviu barulho nenhum, então andou como sempre, do lado da lama do campo de futebol, quando não conseguiu gritar, e uns tentáculos a agarraram das sombras. E ali mesmo, o golpe na cabeça, ali mesmo o peso de vários corpos rolando-a no chão, rasgando sua blusa, desnudando-a entre todos, queriam despedaçá-la com manuseios e apalpadas desesperadas. Ali mesmo, revezaram para amordaçá-la e segurar seus braços, abrindo as pernas, montando-a epilépticos no desespero do capote* periférico.
Ali, as puxadas de cabelo, os arranhões das pedras nas costas, no seu ventre todo aquele leite sujo que a inundava. E em um momento gritou, pediu auxílio, mordendo as mãos que lhe tampavam a boca, mas eram tantos, e era tanta a violência sobre o seu corpo tremendo eram tantas as mandíbulas que a mordiam, a chupavam, como hienas em festa. A noite sem lua foi cúmplice da sua humilhação naquele lugar agreste. E ela sabe que gritou pedindo ajuda, ela tem certeza que os vizinhos ouviram, olhando por trás das cortinas, covardes, cúmplices, silenciosos. Ela sabe que todo o quarteirão apagou as luzes para não se comprometer, mas sim para serem cômodos espectadores de um julgamento coletivo. E ela soube também, quando o último estuprador foi embora, que tinha que levantar-se como pudesse, e juntar os pedaços de roupa, e cobrir a pele nua com roxos. A garota fashion soube que tinha que chegar se arrastando em casa para não dizer nada, soube que devia se lavar no banheiro, esconder os trapos da sua moda preferida, e fingir que dormia acordada, tensa pelo pesadelo. A garota fashion tinha certeza que ninguém ia prestar depoimento se ela denunciasse aos culpáveis. Ela sabia que todo o quarteirão ia dizer que não tinha ouvido nada. E que se à convencida do bairro tinham lhe dado capote os mocinhos do clube, tinha sido bem merecido, porque passava todas as tardes provocando-os, com seus pedacinhos de saia. O que queria? Provocando aos homens com o seu flerte de vadia putiflor?
Nunca mais vi passar a garota fashion, balançando sua beleza. E hoje que observo a leva de cachorros babando e se afastando, seguindo a cachorra, penso que a brutalidade dessas agressões se repete impunemente no calendário social. Um certo juízo abala o crime e a humilhação das mulheres que alteram a hipocrisia do bairro com o perfume de lírios da descoberta emancipada.
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